A BONDADE DEVE SER PERENE
Viva! Mais um período de afloramento da bondade nas pessoas. É páscoa! Alegremo-nos! Sentimo parecido vive-se na Natal. As pessoas se transformam! Aí mesmo está o problema; a transformação é passageira. Olha-se mais para os que não têm comida, para os que não têm casa. As pessoas ficam mais solidárias e menos agressivas. As igrejas e templos ficam lotados. Depois da Semana Santa, como depois do Natal, tudo acaba. A HUMANidade é temporária e dura pouco, como as inovações tecnológicas do mundo atual. Que ironia: tentamos ser mais sensíveis às necessidades das pessoas - nessas épocas - mas, de fato praticamos uma obsolescência programada da bondade.
E, nessa semana, um episódio me chamou atenção. O caso do bebê Moisés - assim chamado pelos moradores do bairro do bessa, em João Pessoa. O menino foi abandonado com poucas horas de vida. Encontrado por um homem, foi resgatado, levado ao hospital e encontra-se bem, segundo as informações dos médicos. Mas o que impressiona é a quantidade de pessoas que manifestaram interesse em adotar o menino. Fantástico, alguns diriam. Isso pra mim é hipocrisia! Gostaria muito de saber se todos esses que manifestaram interesse, adotariam qualquer outra criança. Ou mesmo, entrariam na fila de adoção? Sem ter direito a escolha, sem saber se será um branco, negro, deficiente. Escolher um menino que é famoso - mesmo que de uma forma desgraçada - é cômodo demais.
Quem já visitou um orfanato, como eu já fui, sabe o drama que é aquilo. Mesmo que haja pessoas que cuidam bem das crianças, são várias, que não tem uma casa. Todos são seus irmãos. O rosto de cada um, os pedidos de "tio, me leva!" ou "tio, quando vocês voltam" não saem tão fácil da memória. E temos, pelo menos aqui na Paraíba, 347 pessoas habilitadas para adotar e 55 crianças disponíveis. Tudo solucionado? Não! A grande maioria só quer crianças entre 0 e 2 anos. Perfil pouco comum nos orfanatos.
Que bom se essa disponibilidade para o bem durasse o ano inteiro. Que a Páscoa e o Natal fossem momentos de brindar e comemorar mudanças verdadeiras e duradouras e não atos efêmeros, passageiros.
Como disse, ainda ontem, o arcebispo da Paraíba "Jesus é morto todos os dias em nosso mundo". Deveríamos salvá-lo todos os dias.