quarta-feira, 4 de março de 2015

DOIS REAIS, UM KIT E ALGUMAS IDÉIAS

Ontem conversei pelo skype com um amigo em Grenoble, na França - quem imaginaria isso há uns 10 anos? - e dentre tantas coisas que papeamos, a inevitável comparação entre Europa e Brasil. Ele nem quis entrar muito no assunto, afinal, adora o Brasil. E sabe que está lá, de passagem ou "en passant". Mas apontou algumas coisas que, realmente, chamam atenção de todos que conhecem a Europa e, em especial, a França.
Serviços públicos que funcionam muito bem, inclusive Educação. Tudo o que ele precisou, até agora, para sua pesquisa - ele faz doutorado - o Laboratório da Universidade forneceu. Pouquíssimos pedintes nas ruas. Nada de violência aparente e gratuita - como estamos, infelizmente, nos acostumando a ver - apesar de Grenoble ser a terceira cidade mais violenta da França. Dentre outros assuntos acadêmicos e de trabalho, essas descrições me fizeram pensar, quando desliguei o skype, onde anda o País que está imerso na crise, desde 2012? Isso é a crise deles?
Pois bem, hoje fiz algo que há muito não fazia. Andar de ônibus. Sempre achei um barato, ver vidas diferentes se cruzando, em ritmos bem diferentes, escutar as conversas, ver como os lugares vem mudando, enfim, ver a cidade de uma forma diferente daquela que vemos dentro de um carro. Claro que o transporte coletivo, também em João Pessoa, é horrível. Mas dei sorte de pegar um horário fora do rush. Sei que os ônibus não têm refrigeração, não passam em horários certos, não têm lugar para todos, muitos viajam em pé, a superlotação é lugar comum, sei que há motoristas que parecem levar bois ou vacas, dado o desrespeito com os passageiros. Esquecendo, por um momento, tudo isso, surgiu uma situação que me fez voltar à conversa que tive com Kleber no dia anterior, sobre a França.
Subiu no ônibus um menino, uns 14 anos, roupa surrada, dentes todos tortos e uma mochila na frente. Ele entrou, pedindo ao motorista, quase que como uma súplica. Chegou na roleta, olhou para as pessoas e pediu que alguém pagasse sua passagem para ele poder trabalhar. Confessor que não entendi, no primeiro momento. Mas uma senhora passou o cartão eletrônico e liberou sua passagem. Ele começou, então, com um sotaque totalmente paulista, a dizer, com uma voz, muito tímida, meio trêmula, alta, mas trêmula que estava vendendo uns kits para ajudar sua mãe que estava em casa e não podia mais sair para trabalhar. Disse exatamente isso "mesmo que os senhores e as senhoras não queiram ou não tenham dinheiro para comprar os kits, por favor peguem apenas para ler a mensagem que tem atrás. Isso já me ajuda". Putz, se eu dizer que não deu uma vontade quase incontrolável de chorar, estaria mentindo. Na mesma hora, peguei os 2 reais e paguei o kit. Nem sabia o que tinha. Mas isso é, infinitamente, o de menos...

E a comparação, quem começou a fazer fui eu... como nós, Brasil, poderíamos ser tão melhores em condições sociais, educacionais, comerciais, de desenvolvimento que a França! Não é pergunta. É constatação. Com a quantidade de impostos que os governos arrecadam, com as características naturais que temos, com as características da grande maioria da população, de sermos trabalhadores, de sermos atenciosos, de sermos prestativos, enfim, podemos ser melhores. Mas vivemos essa situação que, por vezes, é revoltante, por vezes, triste. Uma situação que incomoda, que nos leva a pensar, sempre, será que as pessoas que roubam e fazem o que fazem, não sentem nada de ruim por fazer isso? Não se sensibilizam quando vêem, mesmo que pela televisão, situações como essa que vi hoje? Ou será que todos acreditam que falta pouco para erradicar a miséria em nosso País? Quantos desses ainda vemos em nossos ônibus? Quantas famílias ainda dormem nas calçadas? Quantas pessoas passam fome - de verdade - no interior do Nordeste? Ou não tem água potável?... E olha que o Governo afirma em caixa alta que não estamos em crise. Não há crise energética, crise nas empresas, crise financeira.
E, ainda tive outra surpresa. Lembram que o menino pediu para ler a mensagem? A mensagem é essa aí abaixo. Se todos, TODOS buscassem viver como prega a mensagem, seríamos não melhor do que a França; seríamos BONS e viveríamos BEM
"Essencial é viver bem e em paz com ou sem dinheiro"

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