LUAR DO SERTÃO
Passei meus 3 últimos dias em uma festa de interior. Aquelas festas de Padroeira. Festa de Santana, na cidade de Caicó, interior do Rio Grande do Norte. Algumas pessoas conhecem e até já devem ter ido pra lá no Carnaval ou mesmo neste período.
Como não fui pra nenhum dos shows que aconteceram (até porque todos são de forró de plástico), revi muita gente da minha família, bati umas fotos, enfim, aproveitei bem. E, tive bastante tempo pra pensar, observar alguns detalhes que, às vezes, pela correria em que vivemos, não reparamos. Interessante observar como uma cidade relativamente grande - terceira maior do RN - ainda é tão atrasada em algumas questões. É comum demais ver as pessoas andando no meio da rua, sem se preocupar com carros, motos etc. E olha que tem moto. João Pessoa tem muita, mas lá.. hun! Outra característica típica é a posse das pessoas. Lá, todo mundo tem dono. É fulano de sicrano. João de Carmélia, Vera do finado Luiz. Assim, eu sou "Fabin de Avani" ou "Fabin de Toin", minha mãe e pai. E, acho que, mesmo quando estiver velhinho, ainda seria Fabin, no diminutivo. Isso é muito bom. E tem mais, a memória daquele povo, coisa de cinema. Eles conversam sobre todos os conhecidos em comum e a árvore genealógica é requisitada a todo o momento. A ligação entre as famílias também é algo muito peculiar. Elas se reúnem em casas que já passaram por 4, 5 gerações. Existem casas que todos sabem de qual família é. E as pessoas vêm de longe para ficar na casa de sua família.. E há festas organizadas, com camisa, caneca, banda particular, que já passam de décadas de realização. O atraso também é notório. Não há alguns caixas ou agências de alguns bancos. O trânsito, em alguns locais, não tem sinalização. Só quem é de lá para conhecer a lógica. E ainda há muita pobreza.
NO ENTANTO (com maiúscula mesmo)... visitar o interior é algo fantástico. Todos deveriam conhecer e passar um tempo em uma cidade do interior. Recomendo Caicó. Mesmo com a pobreza que insiste em rodear algumas famílias, jamais alguém deixa de fazer um convite: "Vamos entrar e tomar um café!". As casinhas simples, conjugadas, sem varanda ou com uma bem pequena parecem sempre sorrir pra você. Transparecendo uma nostalgia difícil de explicar. Quem já foi em interior, sabe do que estou falando. As cadeiras de balanço parecem ter vida própria, parece que te abraçam e carregam consigo a simplicidade de várias pessoas que por alí passaram e deixaram muito mais do que saudade. Deixaram um pedaço de suas vidas. Morrem, mas permanecem. Estranho, mas agradável. Não há pessoas querendo passar por cima de outras, corromper, enganar. Até deve ter, mas são, com certeza, tão poucas perto das hospitaleiras, das simpáticas, das educadas. A confiança salta aos olhos, como virtude rara em nossos dias, nas grandes cidades. Encontrar jaca sendo vendida no supermercado. Que, mais do que uma vitrine de vendas, é um local de conversas, de rever amigos, de conversar sobre as famílias.
Ver uma feira, como aquelas que nossos pais e avós comentavam, que não encontram mais nas capitais. É bom ver que as pessoas vivem mais, temporalmente falando. São idosos com a pele marcada pelo sol que incomoda,, com marcas no rosto, mas com um alegria que transparece. O tempo parece passar mais lento. As pessoas se falam, andam com mais calma. Sempre se tem um tempo para prosear. E como isso é bom! Lugar onde "mais" substitui "com". Onde se diz "Vá mais seu tio" e pode-se traduzir, literalmente, para "Vá com seu tio".
Comida boa, bons doces, diferentes pratos. Nada de rebuscado. Tudo local, regional. Culinária que, só não desponta, porque é... do interior. E sabe em que isso incomoda os mestres gastronômicos Caicoenses? Em absolutamente, nada! As bolachas, queijos, bolos continuam fazendo parte dos sonhos de muitas pessoas que alí visitam.
A fé, capítulo à parte. A crença, sempre muito relacionada, com o sofrimento, encontra terreno fértil. Afinal, além da pobreza, eles precisam, direta ou indiretamente, de chuva, de colheita. E para isso, pedem muito para que Deus mande chuva na medida do que lhe agrade. E, mesmo com a seca que se instalou na região, a Festa de Santana continua sendo um momento de agradecimento e muita fé.
Como disse certa vez um senhor, sertanejo de verdade, conhecido como Luiz de Januário (seu dono!) ou, simplesmente, Luiz Gonzaga: "Não há [...] luar como esse do sertão"
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